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23 de setembro de 2026 · NASA Earth Observatory · 6 min de leitura

Rastreando o desmatamento da Amazônia do espaço

Há décadas cientistas usam satélites para acompanhar o desmatamento da Amazônia — tempo suficiente para ver mudanças marcantes no ritmo e no lugar em que a floresta é derrubada.

Há várias décadas cientistas usam satélites para acompanhar o desmatamento da floresta amazônica — tempo suficiente para ver mudanças marcantes no ritmo e no lugar em que a floresta é derrubada.

Nos anos 1990 e 2000, a floresta brasileira chegava a perder mais de 20.000 quilômetros quadrados por ano, uma área quase do tamanho do estado de Sergipe. "Naquela época a floresta era terra de ninguém", disse Michael Coe, cientista sênior do Woods Hole Research Center. "Pecuaristas, produtores de soja, especuladores de terra, madeireiros e garimpeiros chegavam à fronteira e derrubavam praticamente o que queriam."

Em 2004, depois de alguns anos de desmatamento especialmente acelerado, a pressão pública virou o jogo. Foi o ano em que o governo brasileiro adotou uma política agressiva, o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). O governo criou uma grande rede de parques nacionais e estaduais, demarcou territórios indígenas, fortaleceu os órgãos de fiscalização ambiental, dificultou a exportação de produtos vindos de áreas desmatadas ilegalmente e reforçou os sistemas de monitoramento por satélite.

Era ambicioso, e funcionou. Em poucos anos, o desmatamento em grande escala caiu cerca de 50%. Em 2012, a derrubada estava quase 80% menor, algo em torno de 5.000 quilômetros quadrados por ano. A virada foi celebrada como uma das histórias de sucesso ambiental mais impressionantes do mundo.

Os sistemas de monitoramento florestal por satélite tiveram papel decisivo na queda, explicou Raoni Rajão, especialista em política ambiental da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1988, o governo criou um sistema de coleta de dados chamado PRODES, baseado em observações dos satélites Landsat 5 e 7. Cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) usavam esses dados para calcular quanta floresta era derrubada a cada ano na Amazônia Legal.

Por mais de uma década, os dados do PRODES ficaram basicamente dentro de laboratórios e órgãos do governo. Em 2002, com a indignação pública com o desmatamento crescendo, o INPE passou a publicar a base completa na internet, com mapas de desmatamento de toda a floresta brasileira. "Esse passo em direção à transparência e à prestação de contas foi decisivo, porque permitiu que a comunidade científica, as ONGs e o público participassem", disse Rajão.

Um segundo sistema por satélite, o DETER, entrou em operação em 2004 e avançou ainda mais. Enquanto o PRODES coletava imagens Landsat a cada algumas semanas e atualizava os totais de desmatamento uma vez por ano, o DETER usava observações diárias de desmatamento, fogo e saúde da vegetação feitas por sensores de menor resolução (MODIS) a bordo dos satélites Terra e Aqua, da NASA. A imagem era de menor qualidade, mas a cobertura diária permitia identificar algumas áreas recém-derrubadas quase em tempo real. No início, o DETER enviava alertas aos fiscais em até duas semanas. Em 2011, o sistema já enviava alertas em um dia.

"O DETER mudou completamente o jeito como os fiscais trabalhavam", disse Rajão. Em vez de patrulhas aleatórias e conferência de licenças, os órgãos passaram a enviar equipes — com as imagens de satélite em mãos — para investigar áreas com atividade recente e suspeita. Isso facilitou muito a apreensão de máquinas. A notícia correu entre os desmatadores: com o DETER no ar, as autoridades provavelmente perceberiam se grandes áreas fossem derrubadas, e multas e agentes viriam logo em seguida.

No começo da carreira, o ecólogo florestal Doug Morton, da NASA, passou alguns anos trabalhando com colegas brasileiros no desenvolvimento do DETER. Havia muitos desafios técnicos. "Com um sistema que olhava uma área tão grande, precisávamos tomar muito cuidado para evitar falsos alertas", explicou Morton. "Aprendemos que tínhamos de ser bem conservadores com os alertas de desmatamento."

Por exemplo, embora o MODIS detectasse mudanças sutis na vegetação assim que os madeireiros começavam a retirar árvores, o sistema só apontava desmatamento quando a área estava totalmente derrubada e queimada, o que às vezes acontecia meses depois. E, pela resolução do MODIS, o sistema só detectava clareiras relativamente grandes — de pelo menos 25 hectares.

Antes do DETER, derrubadas de centenas ou até milhares de hectares eram comuns nas frentes de desmatamento do Pará, de Mato Grosso e de outros estados. Depois que o DETER entrou no ar, o tamanho médio das áreas começou a cair. Em cinco anos, as maiores derrubadas praticamente acabaram. "Os grandes perceberam o recado e mudaram de comportamento ou levaram a operação para fora da floresta, para o Cerrado", disse Coe, referindo-se às áreas de savana, mais secas, ao sul e a leste da floresta.

"A tendência de áreas desmatadas cada vez menores é algo que vemos hoje em toda a Amazônia", acrescentou Benjamin Jakimow, pesquisador da Universidade Humboldt. "Provavelmente é, em parte, uma estratégia para escapar do monitoramento por satélite e da fiscalização."

A cientista Michelle Kalamandeen, da Universidade de Leeds, vem acompanhando de perto essas derrubadas menores com dados de mudança florestal da Universidade de Maryland. Numa análise recente de observações do Landsat, ela constatou que o número de novas derrubadas grandes (acima de 50 hectares) na Amazônia caiu 46% entre 2001-2007 e 2008-2014, enquanto o número de derrubadas pequenas (menos de 1 hectare) aumentou 34%. A maior parte das áreas desmatadas mais recentes ficava abaixo do limite detectado pelo DETER (menos de 25 hectares).

Kalamandeen também acompanhou deslocamentos do desmatamento em toda a bacia. Os focos de perda florestal se afastaram das grandes fazendas de soja de Mato Grosso e do Pará e seguiram para o norte e o leste, em direção a áreas mais secas de Cerrado em outros estados brasileiros e na Bolívia. A mudança na demanda e nos preços globais de soja, couro e carne contribuiu para essa migração, mas analistas também atribuem o deslocamento a iniciativas como a Moratória da Soja, que buscou manter fora do mercado global produtos vindos de áreas desmatadas recentemente.

O que isso significa para a Reserva Legal

Décadas de imagens de satélite mostram que o desmatamento muda de ritmo e de lugar, mas raramente para sozinho. O que mantém uma floresta em pé, no fim, é alguém com motivo para cuidar dela.

A Reserva Legal já é uma obrigação do proprietário rural no Brasil; o que costuma faltar é reconhecimento e acompanhamento. A Neutraza liga as duas pontas: o Guardião, que mantém a reserva, recebe pelo hectare adotado; o Titular, que apoia, recebe um certificado rastreável e acompanha a floresta pelo satélite, na página pública de cada FRU.

Os mesmos satélites que mediram a perda da Amazônia por décadas hoje servem para provar, hectare por hectare, que uma parte dela continua de pé.


Fonte: Tracking Amazon Deforestation from Above — NASA Earth Observatory, texto de Adam Voiland, 20/12/2019. Texto original de agência do governo dos EUA, em domínio público. Imagem: NASA/USGS, da mesma matéria. Tradução para o português: Neutraza.

Cada FRU é um hectare de Reserva Legal, localizado e verificado.